Em 2003, quando eu era estagiário no Banco de Brasília, trabalhei com uma simpática senhora, que atendia pelo nome de Voleide. Sempre me diverti com suas histórias absurdas e sua militância pelos direitos da mulher. Bancária desde os 20, solteira, dois filhos, ela vivia me contando os causos de seus dramas do sucesso. E se tinha alguém com mais bizarrices do que eu, esse alguém era Voleide. Hoje, é claro, já deve ter completado seu meio século de vida e a lista de bizarrices também deve ter crescido.
Tudo que aprendi no banco foi com Voleide. Menos a falta de educação. Ao atender um cliente, ela não deixava ele falar. Sabe quando alguém fala, fala, fala e não tem paciência de escutar? Assim era Voleide. Por várias vezes, eu vi clientes do banco a xingando. Ela, com aquela cara de Nazaré Tedesco desconfiada, olhava pra mim e soltava uma pérola: – Meu Deus, o que aconteceu com ele? Essa gente é maluca”, dizia. Na verdade, maluca era ela e todo mundo sabia.
Após o expediente bancário, Voleide teimava em ir embora. Algumas vezes também precisei ficar até mais tarde no estágio e nenhum sinal dela arrumar as coisas para partir. “Não quero ir pra casa. Daqui, vou para um pagode. Estou deixando a hora passar”, contava. Toda sexta-feira era a mesma coisa. Um dia, vi Voleide se escondendo de um cliente. “Quem é, mulher?”, eu perguntava. “Xiiii, eu beijei esse cara na semana passada, lá no pagode que eu te chamei pra ir, mas não quero mais nada com ele”, dizia. E fazia aquela cara hilária com perfeição suficiente para me fazer rir.
Como aprendiz, fiz muitas burradas no banco. Voleide não tinha paciência alguma comigo. E eu, é claro, me irritava com ela. E ela comigo. Mas, no final das contas, acabava me dando um abraço gostoso, como se pedisse aquilo todo santo dia. As vezes eu a via indo embora, após o expediente, e ficava imaginando por quantas aquela mulher de pulso firme já deveria ter passado. Quando não era problema com seu vale transporte, era algum engraçadinho que brincava com o nome dela, estampado em seu crachá. A gente sabe que não é muita gente no mundo que atende por Voleide. Então, ela devia ser mesmo especial.
Infelizmente, depois do ano que passei no Banco, perdi totalmente o contato com ela. Hoje pela manhã, no trânsito, avisto uma senhora, na parada de ônibus, com a mesma bolsa e o mesmo penteado. Não posso afirmar exatamente que era Voleide, mas tudo indica que sim. Nessa hora, ela deve estar em alguma agência bancária, brigando com algum cliente e fazendo a vida de mais um estagiário feliz. Ah, que saudades de Voleide…
Tags: 2003, Agência BAncária, Banco de Brasília, BRB, Dramas do Sucesso, Ensino Médio, Estagiário no Banco de Brasília, Histórias Bizarras, pagode, Voleide