Quando era criança, eu adorava fazer compras com minha mãe no supermercado. A minha diversão preferida era escolher cada item, cada guloseima e encher o carrinho de compras com tudo o que eu quisesse. Um dia, em uma dessas idas, eu me perdi dela. Meus olhos ficaram cegos em meio a tantos rostos desconhecidos que a minha primeira reação foi chorar. Chorei até que alguém me pegou pelo braço, me levou até a segurança do supermercado e anunciou meu nome no microfone. Minutos depois, lá estava minha mãe, assustada por ter me perdido e talvez mais assustada ainda pela minha reação sofrida diante do que tinha acontecido. Essa mesma sensação de desamparo e abandono se repetiu outras vezes durante minha infância. E foi assim até eu virar adulto e achar que poderia conquistar o mundo. Sem choro.
Agora, aos 24 anos, me vejo sozinho, sem minha mãe por perto, tendo que caminhar com minhas próprias pernas e lidar com outros tipos de desamparo que a vida adulta nos impõe. Mais que isso, me vejo com o desafio de buscar a luz do autoconhecimento me perguntando sempre quem eu sou, o que quero ser, quem já fui, e o de alcançar a maturidade – pelo menos espero que seja esse o verdadeiro sentido de envelhecer. Hoje fui ao Cineplex da Bay com o Paulo e o Dominique, que chegou essa semana em Toronto, para assistir a Iron Lady. Mais uma vez, o assunto velhice e morte deram um nó na minha garganta. Não apenas pelas grandes perdas que acumulo na vida, mas porque amanha é aniversário da minha mãe. Quão dificil deve ser envelhecer e ver suas pessoas amadas partirem? Quão dificil deve ser fechar a porta do seu quarto a noite para encerrar mais um dia de existência e ter que lidar com lembranças de quem você foi e não mais de quem você vai ser?
No caminho de casa, o papo foi forte: quem somos nós? o quanto dos nosso pais há dentro de nós? Nossos medos são mesmo nossos medos? Podemos ser quem quisermos? Chegar onde quisermos? Em uma das cenas do filme, Margaret Tatcher diz para seus colegas de partido o seguinte: “Watch your character, for it becomes your destiny. What we think we are, we become. My father always said that, and I think I am fine. I’m just fine”. Em uma tradução livre para quem não fala inglês é mais ou menos o seguinte: “Conheça seu papel para que ele se torne o seu destino. O que nós pensamos que somos, nós nos tornamos. Meu pai sempre disse isso, e eu acho que eu sou ótima. Então, sou ótima”. Imediatamente após essa cena do filme passou um outro filme, dessa vez na minha cabeça. Quem eu acho que eu sou? E se eu sou o que eu acho que sou isso me faz uma pessoa melhor? Uma pessoa que conhece a si mesma?
Eu sou o filho do meio de um casal de brasileiros, Maura e Manoel. Ele se foi cedo, porém. Tenho uma irmã mais velha, que também tem a letra E no nome, Elaine, e tive um irmão, Eudes, outro com a letra E e outro que também partiu jovem. Sou tio da coisa mais preciosa do mundo, meu sobrinho Sarkis. Tenho primos que são como irmãos e, recentemente, Deus me tirou um deles, a Wanessa, a quem ainda muito me dói a morte. Sou o filho que foge da segurança e da zona de conforto ao mesmo tempo que reclama a falta de amor e proteção. Sou o amigo que rejeita relações superficiais. Sou alguém que carece de reconhecer a si mesmo nos olhos dos outros. Sou jornalista, gosto de informar, escrever, conversar. Sou viajante do mundo para fugir de mim e também das amarras que me cercam, como se elas não me seguissem onde quer que eu vá. Além do que já sou, sou, enfim, o que eu quiser ser.
Mas o barato disso tudo é que quando a gente cresce e acha que pode conquistar o mundo se depara com tantas perguntas na cabeça, como todas essas que escrevi aí em cima, que nos faz voltar no tempo. Então percebe que choro bom é aquele que se dá quando se estar perdido, em um supermercado fazendo compras ou em qualquer outro lugar, e sua mãe está lá para ampará-lo e secar suas lágrimas. O choro triste, aquele que vem da alma, é por saber que você está perdido dentro de si mesmo, sem alguém para te puxar pelo braço, anunciar o seu nome no microfone e pedir ajuda por você. E na vida adulta a gente também descobre que lá dentro, lá no fundo da alma, não há ninguém para fazer isso, para responder suas perguntas e te puxar pelo braço, a não ser você mesmo.

I love being able to get small glimpses into who you were that made you who you are. What you wrote on my post: you’re absolutely right. That month, those women… we are wonderful people. I only hope that with time I can learn more of what we share.
Love the post. It’s beautiful.