Mentes inquietas, trabalhos criativos

Profissionais responsáveis pela produção de conteúdo em seus campos de trabalho contam como funciona o processo criativo. Trabalho, em geral, passa pela inquietação às questões cotidianas, à atenção às pessoas e a não ter vergonha de se mostrar

*Elton Pacheco
epacheco@jornaldacomunidade.com.br

Aricio FortesEm algum momento ao longo desses 53 anos de Brasília, eles se encontraram algumas vezes no parque da cidade. Ela, de moto. Ele, de “camelo”. Do romance, veio o casamento, os gêmeos e a primeira ‘barra’ que enfrentaram juntos. A história todo mundo conhece. É o caso de amor entre Eduardo e Mônica, eternizado nos trechos de música homônima de Renato Russo, que, ainda hoje, desperta os corações mais apaixonados.

Em 2011, a Agência África, conhecida pela criatividade em suas produções, pegou uma carona no clássico e fez uma espécie de Eduardo e Mônica 2.0 em uma campanha publicitária para o dia dos namorados. Não deu outra. Apenas nas primeiras 24 horas no ar, o vídeo, produzido para uma empresa de telefonia do país, teve quase 2 milhões de acessos na internet.

A sacada foi boa. Uniu a canção, sempre tão presente no imaginário popular dos brasileiros, à data comercial dos pombinhos. Uns gostaram porque curtem a música. Outros pela identificação causada pelos dramas do cotidiano vivido pelo casal, uma história de amor que poderia ser a sua, a minha, ou a de qualquer pessoa comum.

Mas quem são as mentes criativas por trás de produções bem sucedidas como este vídeo para o dia dos namorados? Ao longo da última semana, o Comunidade VIP conversou com cinco profissionais sobre processos criativos. O trabalho, segundo eles, passa pela inquietação às questões cotidianas, à atenção às pessoas que os cercam e, sobretudo, a não ter vergonha de se mostrar.

Arício Fortes, hoje diretor de criação da Agência África, a mesma do case que abre esta reportagem, acredita que o que faz de uma ideia boa é o que ela desperta em quem vai ‘consumi-la’. “É aquela magiquinha que você sente quando vê a ideia ou alguém te conta. É isso que faz ela sair de boa para inesquecível”, diz. Para isso, valem as experiências do cotidiano. “Minha inspiração vem da vida, das ruas, do jeito que as pessoas falam, da feira, de ouvir a conversa no bar, de sentir o pulso das pessoas. A vida é a maior fonte de inspiração que existe. Não fica melhor que isso”, garante.

Ele é o cara por trás do time que criou a famosa propaganda A vida gira em torno do sol para uma marca de protetor solar muito conhecida por aqui. A campanha foi exibida na televisão no verão de 2011 e 2012 e quis chamar a atenção dos brasileiros para o uso do produto e a importância de aproveitar a vida ao ar livre, fora do escritório e desconectado da internet.

Além do filme, a campanha contou com anúncios em revistas e em ambiente virtual. “Gosto muito dessa campanha, que criei com colegas na DM9 (agência que trabalhou por sete anos e na qual diz ter feito escola). A propaganda é, inclusive, utilizada até hoje. Outros comerciais foram muito divertidos de filmar também, como alguns que o ator Marco Nanini interpretava São Pedro”, lembra.

Segundo o publicitário, a criatividade pode ser um dom nato, mas também aprendida. “Em propaganda, que é a minha área, acho que é questão de treinar o olhar e aprimorar a técnica. Isso pode fazer uma pessoa ser mais criativa para resolver um problema de um cliente, por exemplo. Propaganda é criatividade aplicada à resolução de problemas de marketing”. Para isso, explica Arício, vale a busca por inspirações.

O publicitário acabou de ler Sonho Grande (Cristiane Correia, editora Sexante), livro que conta a trajetória de três grandes empreendedores do Brasil: Jorge Paulo Lemman, Marcel Telles, e Beto Sicupira, nomes por trás de gigantes como o Burger King, a Blockbuster, Budweiser, Heinz, Lojas Americanas e Submarino. “O segredo é trabalhar duro e acreditar sempre no seu taco”, ensina.

Aricio esteve, na semana passada, na França, para participar do Cannes Lions, o maior festival internacional de criatividade. Na edição do ano passado, o publicitário foi premiado com três leões, sendo um de ouro – ao todo, ele já coleciona 11. Dessa vez, Aricio participou como jurado, avaliando os trabalhos criativos de profissionais de 90 países. Até o fechamento desta edição, o Brasil já havia conquistado 31 prêmios. Update: as agências de publicidade brasileiras bateram o recorde de Leões em uma mesma edição, com 115 troféus.

Urbano
FelipevazFelipe Vaz tem nos desenhos uma paixão. Passa horas a fio com lápis e papel na mesa de trabalho, mas é o fone de ouvido o instrumento obrigatório para criar. No som – sempre às alturas – bandas que ele curte e que tenham a ver com o propósito do trabalho que desenvolve – algumas funcionam também como referência para criação, mudando os rumos do resultado final.

“Mas minha preferência é por rock pesado”, avisa logo. Uma olhada rápida em sua arte não deixa dúvida. Os traços rabiscados ou até mesmo inacabados (diriam os olhares mais inexperientes) são de propósito. “São artes finais com tons de rascunho. Dessa forma, consigo dar um tom mais urbano nos desenhos, que é o que curto”.

Para criar, lápis, caneta e papel são utilizados para os esboços, que podem demorar 20 minutos ou semanas, depende do que se propõe. No processo de finalização, nanquim ou caneta stabilo em papel vegetal, além de cores e texturas digitais com a ajuda de programas como o photoshop – muito embora, a preferência seja o preto. “Jogo cores fortes apenas quando quero trabalhar a mente do cliente ou de quem esteja visualizando o trabalho”, diz ele. Da mente criativa de Felipe saem criticas ácidas e agressivas ao que nos cercam. “Mas sempre com bom humor”, garante o artista.

A paixão pelos desenhos começou ainda cedo. Via a mãe, que é arquiteta, trabalhar, e copiava os passos. Na escola, fazia rabiscos e caricaturas da turma. Chegou a desenhar o uniforme do colegial. Na faculdade, estudou luz, sombra, 3D e ganhou referências. Dos quadrinhos ao pop art, até hoje nortes de seu trabalho, veio a admiração por Roy Linchtenstein e Caravaggio, com sua arte densa e sombria.

Para um job ser perfeito, diz ele, é preciso insistir. “Se você quer ser bom em algo o jeito é repetir incansavelmente. Por isso, desenho muito (Felipe já conta mais de 100 desenhos em seu portfólio)”. Em casa, a playlist de música, sempre alta, que o acompanha no processo de produção é densa e bem selecionada. “De preferência, acompanhada de uma cerveja”, brinca.

Método
arelioO designer Aurélio Jota, hoje diretor de criação na Agência Idélibe, não gosta de afobação e nem de pular etapas quando está criando. “Quando isso acontece, sinto que o resultado do trabalho fica insatisfatório, mesmo que o cliente goste”, afirma. O motivo do perfeccionismo é que Jota, como gosta de ser chamado, é metódico. “Gosto e prezo pelo passo a passo de um projeto. Claro que, às vezes, o curto tempo disponível para produção atrapalha. Mas os trabalhos que mais me satisfazem são aqueles em que todas as etapas do processo criativo foram respeitadas”, conta.

Jota está no mercado publicitário há seis anos. Nesse período, atuou em diversos cargos, como web designer, programador, diretor de arte e até artista 3D. “Eu me considero um profissional multidisciplinar ou generalista, pois gosto de participar de projetos variados, de modo que essa variação não deixe brechas para uma rotina monótona de trabalho”, conta, acrescentando que seus trabalhos permeiam, ainda, música e ilustrações. Deve ser influência da família. “Pela musicalidade do meu pai, que também trabalha com tecnologia, e pela minha mãe, que trabalha como professora de arte, meu lado criativo e curioso sempre estiveram presentes”, conta.

Recentemente, o designer explorou um novo campo, o da animação. Ele participou de um curso de produção da escola de audiovisual Ozi, conhecida em Brasília por explorar os potenciais criativos de seus alunos. “Tive o prazer de conhecer diversas áreas de atuação que o 3D permite e de participar de um curta-metragem, de conclusão do concurso e, posteriormente, trabalhar na produtora da escola em um longa-metragem”, lembra.

Entre os trabalhos que ele mais se orgulha estão os de identidade visual, de ilustração e sites interativos. “Meu conselho é não perder tempo”, afirma. Além da direção da agência, o inquieto Jota trabalha em um projeto guardado a sete chaves, um desafio proposto por ele mesmo. “Será um teste das minhas habilidades e competências”, garante.

Solitário
Fernando Carpaneda - 5O artista plástico Fernando Carpaneda deixou Taguatinga (DF) em busca de espaço, digamos, mais livre. Queria respirar arte. Encontrou ambiente propício e foi acolhido em Nova Iorque. Por lá, Carpaneda produz esculturas de argila que muito dizem sobre o mundo underground e suas próprias questões. “A maioria dos meus personagens retratados é composta por marginais e pessoas marginalizadas pela sociedade”, adianta.

Muito por causa disso, as esculturas do brasiliense estarão no filme Homem-Aranha 2, com previsão de lançamento para 2014 e que também abordará personagens do submundo. “Foi um subtexto perfeito. Um dos atores do filme, que me conhece, apresentou o meu site para a produção do longa, que fez contato comigo. Com isso acabei me misturando com o povo de Hollywood, conhecendo atores, diretores e pessoas ligadas às grandes produções de cinema, teatro e artes plásticas”, conta ao Comunidade VIP, por e-mail, direto da big apple. Confira, aqui, a íntegra da minha conversa com o artista.

Apesar dos holofotes que Hollywood já está lhe dando, criar, para Fernando, é um processo solitário. “As minhas inspirações e referencias para fazer um trabalho geralmente vem de pessoas que eu conheci nas ruas, ou pessoas que me inspiram. Sejam elas vivas ou mortas. Alguns de meus novos trabalhos têm um lado espiritual que está ligado com as pessoas que retratei recentemente. Tenho feito o retrato delas físico e mostro o lado espiritual delas em algumas peças. Com isso criando alguns seres híbridos”.

Para produzir as esculturas em argila, o artista plástico chega a usar os próprios cabelos. “É para a finalização das esculturas. Acabo criando trabalhos impossíveis de serem falsificados, pois meu DNA está em todos eles. Quando começo a esculpir tento seguir a ideia original que tive. Mas, normalmente, durante o processo de construção as esculturas ‘me dizem’ como elas gostariam que terminassem. Por isso, às vezes, a ideia original acaba se transformando e ficando bem diferente do que eu tinha pensado no inicio.”
Em breve, a arte e o processo criativo de Carpaneda serão tema de documentário. Ainda sem data para lançamento, o trabalho já está sendo dirigido pelo diretor Cesar Terranova, da New York Film Academy.

Musicalidade
ruySempre quando se ouve uma música, vem sempre a dúvida de como surgiram aqueles versos. Como criaram os compositores? A partir de que? O que estava por trás do processo produtivo? Para responder as questões, o produtor e pesquisador Ruy Godinho mergulhou em um profundo processo de pesquisa.
Do trabalhou surgiu o livro Então, Foi Assim – A origem de 80 histórias de sucessos da música brasileira, que terá o terceiro volume ainda em novembro deste ano. “Muito ri e chorei ao pesquisar e escrevê-lo. Minha inquietação foi movida pela curiosidade. E a produção dos livros foi feita a partir dos áudios das entrevistas, que foram degravadas e se transformaram nos textos saborosos que adotei como linguagem para o livro.”.

Mas a ideia, conta ele, surgiu ainda em 1997, quando produzia o programa Estação Brasil, na Rádio Cultura FM, de Brasília. O programa tinha um quadro chamado A Origem da Música, e contava histórias de como surgiram músicas de sucesso. A cada semana era desvendada a origem de uma música. “No final de 2005, depois de muito material coletado, resolvi começar a lançar no papel o resultado da pesquisa. Optei por uma linguagem simples, cheia de humor e leveza, romanceada. Um passeio revelador sobre os mistérios, as inspirações e tramas que levam os compositores a criarem suas músicas”.

Mais tarde, Ruy voltou à cena com um novo programa de rádio, há três anos no ar. “É claro que precisei apenas adequar as perguntas e a ambientação das entrevistas para que o áudio viesse a servir para utilização em rádio”, explica. O trabalho exigiu sensibilidade e criatividade. “São essas as molas de quem trabalha com arte e criação. Há que se ter talento. Por exemplo, eu desde criança gostava de escrever e ganhei prêmios em escolas pelos meus escritos. Fiz teatro durante muitos anos. Toco violão desde 14 anos. Componho desde adolescente. Então, já vim com esse talento, essa habilidade para as artes”, conta.

Para ele, estar sempre cercado de pessoas da área ajuda na assimilação. “Outra coisa é não ter uma autocrítica muito forte. Não ter vergonha de mostrar o que criou, mesmo que pareça coisa boba. A tendência é inicialmente a gente achar bobagem o que cria. E muitas vezes o que a gente acha uma bobagem vai ser admirado, bem recebido e difundido pelas outras pessoas”, conclui.

*Este texto foi originalmente publicado na edição de 22 de junho de 2013 do Jornal da Comunidade, de Brasília. Com reportagem de Elton Pacheco e fotos de Dinah Feitoza e Rose Brasil.

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