Não há como saber

“Ele costumava sempre dizer que só havia uma estrada, que se assemelhava a um grande rio: suas nascentes estavam em todas as portas, e todos os caminhos eram seus afluentes.

– É perigoso sair porta afora, Frodo’, ele costumava dizer.

‘Você pisa na estrada, e se não controlar seus pés, não há como saber até onde você pode ser levado…’”

Trecho extraído do livro O Senhor dos Aneis – A sociedade do anel, de JRR Tolkien.

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A força dos próprios corações

(…) Quanto mais avançarem, mais difícil será recuar; apesar disso não lhes é impingido qualquer juramento ou compromisso de continuar além do que estiverem dispostos. Pois vocês ainda não conhecem a força dos próprios corações e não podem prever o que cada um encontrará na estrada.

Trecho extraído do livro O Senhor dos Aneis – A sociedade do anel, de JRR Tolkien.

E se voltar, você não será mais o mesmo

Gandalf: Estou procurando alguém para participar de uma aventura que estou organizando, e está muito difícil achar alguém.

Bilbo: Ainda mais por esses lados! Nós somos gente simples e acomodada. E eu não gosto de aventuras. São desagradáveis e desconfortáveis. Fazem com que você se atrase para o jantar. Não consigo imaginar o que as pessoas vêem nelas.

Gandalf: Você vai ter uma história ou duas para contar quando voltar.

Bilbo: Você pode me prometer que eu vou voltar?

Gandalf: Não. E se voltar, você não será o mesmo.

Trecho extraído do livro O Senhor dos Aneis – A sociedade do anel, de JRR Tolkien.

O silêncio de uma guerra barulhenta

Um silêncio incômodo impera absoluto no ônibus. Confiro as horas no celular, que a essa altura da viagem está congelado pelo frio intenso, e percebo que faltam apenas 10 minutos para o destino final. São 7h50 da manhã de 16 de novembro de 2017. Eu e meu sobrinho estamos na estrada há quase uma hora.

Aqui, o cenário é bem diferente daquele que deixamos para trás, na imponente capital sul-coreana. Não há tanta gente, não se ouve tantos ruídos, salvo aqueles dos pássaros. Mais de cinco décadas de quase total isolamento da presença humana na região têm lá seus benefícios – não fosse, é claro, por este silêncio que pertuba. Dizem que a fauna e flora estão preservadíssimas na região, feito inimaginável para o que ela representa. A verdade é que existe algo de macabro no ar, entre tantas montanhas e florestas que circundam o local.

Estou em Panmunjeom, a famosa região onde se encontra o Paralelo 38, a fronteira entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte. Conhecida como DMZ (sigla em inglês), a zona desmilitarizada, que se estende por toda a divisa, é resultado do armistício após a guerra de 1950-53, nada mais do que uma cerca elétrica com arame farpado por cima, que se espalha por 280 km de leste a oeste.

Em outras palavras, este é o limite mais ao norte da Coreia do Sul, e é, também, o que melhor representa a separação de um mesmo povo em duas nações não apenas com sistemas econômicos e políticos diferentes, mas, agora, tanto tempo depois, com histórias de futuro bem distintos. Mais difícil ainda acreditar que pouco mais de 200 km rumo ao norte está Pyongyang, a famosa capital norte-coreana.

Ao redor, o que se vê é um pequeno vilarejo, com arames farpados e alto falantes por todos os lados. Pergunto à guia para que servem. – É para comunicação entre o governo e os moradores, em caso de alguma emergência, ela me explica. Moradores? – Sim, moram aqui 60 famílias, pouco mais de 200 pessoas que recebem isenção de taxas do governo, alguns têm até muito dinheiro, revela.

– Essas pessoas, elas parecem não existir, acrescento.

Mais adiante, o ônibus estaciona em uma espécie de praça, onde outros veículos de turismo, maiores, já estavam estacionados. Um símbolo enorme traz as iniciais DMZ, com um globo dividido ao meio. De um lado da praça, está uma sala de cinema, onde é exibido um curto filme sobre a guerra. No meio, apenas mais silêncio e neve, que começa a cair devagarzinho do céu.

Este silêncio é só interrompido quando escuto ruídos de rádio do lado de lá. – O que é este som?, pergunto à guia. – É propaganda comunista. Está dizendo o quanto o regime de Kim Jong-un é bom para o povo. Toca a mesma mensagem 12 horas por dia para os moradores, ela explica. – Aí a gente toca Kpop para contrapor.

Todos riem.

Do outro lado da tal praça, o inimaginável. Abaixo da terra, a 435 metros de profundidade, está o que os coreanos chamam de túnel de infiltração, construído ao longo de 3 km pela Coreia do Norte para invadir o Sul. Não fosse pela denúncia de um desertor norte-coreano, talvez os irmãos do norte tivessem tido sucesso. E ali entrei. Há armários para você deixar seus pertences, inclusive celular. Não é permitido fotografar. Já na fila, você é obrigado a usar um capacete amarelo, daqueles de minas, e desce por longos minutos em fila indiana.

O espaço é extremamente apertado. Uma fila desce e a outra sobe. Pessoas mais altas têm dificuldades – o túnel foi criado para norte-coreanos, com estatura baixa, daí você pode imaginar o nível de dificuldade. Ao longo do percurso ouve-se xingamentos nos mais variados idiomas. É o sinal de que alguém bateu com a cabeça no teto. Ao final da fila é possível ver o local onde começou a ser cavado, já em território norte-coreano, mas respeitando o limite de fronteira. Acredita-se que existem 20 túneis construídos para invadir o Sul. Até hoje, porém, o governo só localizou quatro. Este que visitei é o terceiro.

Dali, seguimos de ônibus para o que é chamado de Observatório de Dora, de frente para Kaesong, a cidade norte-coreana onde até 2013 funcionava um complexo industrial. Essa era a única zona de desenvolvimento existente entre os dois países no pós-guerra, mas que, por decisão do regime do norte, foi fechada. Com um simples binóculos, pude ver Kaesong, a fantasma Kaesong de perto – e preciso dizer: foi uma das sensações mais estranhas que já tive na vida. A sensação de ‘tão perto, tão longe’ mais uma vez toma conta. E é impossível descrever…

Pude ver gente trabalhando no campo e uma grande e imponente estátua de Kim Il Sung, o avó. Também se vê bandeiras espalhadas por toda parte. Há estradas abandonadas. Dizem que Kaesong se tornou uma cidade fantasma após o fechamento do complexo industrial. Perto dali, dias antes da minha visita, um soldado norte-coreano utilizou a estrada abandonada para desertar para o sul de carro. Foi baleado, mas sobreviveu.

O ponto final da viagem foi também marcado por sentimentos conflituosos. Visitei a Dorasan Station, uma estação de trem inaugurada pela Coreia do Sul em 2002 para marcar os esforços do governo em unificar os dois países. Apesar de bem cuidada, por ser nova, e imponente, Dorasan é também fantasma. O governo de Seul espera utilizar essa estação para ligar a capital à Pyongyang no futuro breve.

Um trem parado nos trilhos confere ainda um tom mais sombrio ao local, assim como um relógio que marca os dias de separação – até a minha visita eram 72 anos, 4 meses, 4 dias, 12 horas, 45 minutos e 54 segundos. Foi presente de um artista alemão, que também contou no relógio ao lado o tempo de separação da Alemanha: 41 anos, 4 meses e 11 dias. Placas por todos os lados indicam a proximidade com a Coreia do Norte. E é possível obter um carimbo que indica que seu tíquete está válido para Pyongyang.

Do lado de fora, porém, algo nos chama de volta para o mundo real – ou para aquilo que nos acostumamos a chamar de real. Seul, o império capitalista da Ásia, logo ali, nos mostra o caminho. Ir embora foi como viver um pedaço de uma história não esquecida e que todos os dias dá sinais de que precisa ser urgentemente reescrita.

Até porque, a Guerra da Coreia, que matou milhões de pessoas, terminou em um armistício, não em um tratado de paz. Por esta razão, os dois países ainda estão tecnicamente em guerra. Uma guerra difícil de explicar com palavras, mas de consequências facilmente percebidas naquele local bucólico e sombrio, onde se ouve mais o barulho de pássaros do que se sente a presença de vida humana.

A chuva, a memória e as palavras escritas

Sete meses se passaram desde que atualizei este blog, hoje abandonado à sua própria sorte, coitado. Sinto um vazio incômodo aqui, não tem a vida e o barulho de outrora, nada. Enquanto me dou conta disso, ouço algumas gotas d’água caindo na janela, e fixo o olhar no café que esfria aqui do meu lado. Fora isso, é puro silêncio. Quer dizer, tem também o barulho que Tutu faz enquanto dorme encostado no meu pé. Vai ver ele está sonhando algo bom, porque a respiração é de alívio puro e felicidade. Continue lendo “A chuva, a memória e as palavras escritas”